sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Nunca é tarde para recomeçar


É incrível o número de mulheres que estão mandando e contando suas histórias. E mais incrível ainda é saber que muitas delas estão jogando a poeira e renascendo para a vida e para o SER MULHER. A matéria sobre o ciúme esta pronta, mas vou colocar esse depoimento de Margaretty de Curitiba para vocês verem que tudo pode ser diferente quando a gente quer. Boa leitura.


Em dezembro de 2008, quando acessei o blog "Falandodemulher" pela primeira vez, algumas matérias e depoimentos fizeram-me refletir muito sobre minha sexualidade, uma vez que este é um assunto atual na minha vida.


Onde, quando e por que reprimi tanto meus desejos mais íntimos, o prazer do amor, a satisfação do corpo saciado?


Muitos fatos influenciaram essa atitude. Não procuro culpados, pois hoje tenho certeza de que é minha a maior parcela de responsabilidade, pois me deixei subjugar e não reagi para preservar minha individualidade.


Aos treze anos, em plena adolescência, soube que fora adotada, que minha mãe biológica deixou casamento, marido e filhos para viver suas vidas em São Paulo. Como morávamos em uma cidade pequena, a atitude de minha mãe causou um grande impacto.

Menciono esse fato porque ele teve conseqüências negativas em minha vida. A educação que recebi era rígida e, quando comecei a demonstrar interesse pelo sexo oposto, era sempre lembrada dos cuidados que deveria ter com minha moral. “Cuidado... as pessoas podem falar que a fruta não cai longe da árvore”. “Moça de família não pode ser atrevida, precisa ser recatada para ser respeitada”.

Ao longo de minha juventude, esses “conselhos” foram minando minha auto-estima, fazendo-me sentir suja e leviana quando sentia atração por algum jovem. Mas, amava meus pais com tanta obsessão, com tamanha gratidão por me proporcionarem um lar e estudos, que passei a controlar meus instintos, permitindo que me moldassem para ser a filha ideal, da qual pudessem sentir orgulho.

Aos 20 anos, casei com o homem que amava certa de que poderia deixar aflorar todos os meus desejos reprimidos, amar e ser amada sem tabus, livre para ser a mulher que de fato era: uma mulher fogosa, pois a experiência sexual antes do casamento assim demonstrava. Quanta decepção... Apenas saí da “forma” de filha ideal, para entrar na “forma” de mulher casada.

Como esposa, devia estar sempre à disposição do marido para o que ele desejasse e satisfazer suas vontades sexuais sem ousar sequer pedir um carinho recíproco. Isso não era a atitude esperada de uma mulher casada, mãe de seus futuros filhos. Além disso, uma mulher que não conseguia atingir o orgasmo com alguns minutos de penetração não podia ser normal... Querer acariciar e admirar o corpo do seu marido ou vice-versa? Isso era coisa de prostituta... Quando meu homem, satisfeito, roncava ao meu lado, tinha medo que acordasse e me flagrasse masturbando-me para me satisfazer.

Passei a compensar minhas frustrações, comendo compulsivamente e cheguei aos 132 kg. Com 46 anos, nosso relacionamento sexual terminou. Na época, justificou-se dizendo que estava impotente. Mais tarde, soube que era mentira. A verdade é que não sentia vontade de transar com uma mulher gorda. Não me importei, pois não tinha mais prazer no sexo, chegando a ter medo de relacionamentos dolorosos e sempre esperando que ele dormisse primeiro, para então me deitar. Mergulhei de cabeça em tantas atividades, que consegui adormecer minha sexualidade. Cheguei ao fundo do poço, fui internada diversas vezes devido a doenças psicossomáticas e encaminhada para terapia com um psicólogo.

Não foi fácil, pois tinha imensa dificuldade de falar de minha intimidade, de minha sexualidade, de analisar fatos do passado. Hoje, agradeço a oportunidade que tive, pois aos poucos fui recuperando minha auto-estima. Fiz cirurgia bariátrica há cinco anos e eliminei 55 kg. Passei a ter novo ânimo, mais confiança em mim mesma e a ter consciência daquilo que quero para minha vida. Estou viúva há quatro anos, continuo só, mas com minha auto-estima cada vez mais elevada.

No início deste depoimento, questionei: como, quando e por que parei de viver realmente?
As respostas já não importam. Não quero mais alimentar as dores do passado, não quero achar culpados nem me sentir culpada por atitudes que não tomei. Desejo recomeçar, conceder-me nova chance, acreditar em mim mesma, fazer higiene mental, esvaziar meu coração de mágoas e enchê-lo com sentimentos bons e, por que não, com um novo amor.

O primeiro passo foi entrar em um site de relacionamentos, onde posso ter contato com outros homens, soltando-me aos pouquinhos. Entre tantos perfis, um chamou-me especial atenção e atualmente temos mantido contato pelo MSN. Com a ajuda dele, estou conseguindo externar tudo o que estava escondido em algum lugar dentro de mim. Chego a ficar assustada com a intensidade de sentimentos reprimidos que estão vindo à tona. Estou com 65 anos de idade, há 19 sem relacionamento sexual, feliz porque a vida está me ensinando que nunca é tarde para viver intensamente, sem dar importância às convenções sociais quanto à idade da sexualidade. Estou, finalmente, pronta para amar em toda a plenitude.

Desejo que este depoimento ajude outras mulheres que têm histórias de vida semelhantes e possam acordar para a vida antes que seja tarde demais.
Margaretty Santos
Curitiba - Brasil

2 comentários:

Regina Barros disse...

Cara Margaretty.
Parabéns pela coragem de expor com tanta crueza e contundência - mas, ao mesmo tempo, com tanto lirismo - sua experiência de vida que, infelizmente, é comum a tantas mulheres.
Fomos realmente educadas para servir - primeiro aos nossos pais, depois aos nossos maridos e filhos -, anulando nossa personalidade e sufocando nossa vontade.
Fomos ensinadas a dar prazer. Jamais a sentir.
É gratificante ouvir esses brados de liberdade, que ecoam por este blog e povoam o imaginário de tantas outras mulheres que ainda não se descobriram na sua integridade.
Que seu grito de alforria faça eco e ajude a despertar o espírito guerreiro de quem ainda não conseguiu se libertar.
Como disse Simone de Beauvoir:
"(...) para que a idéia de libertação tenha um sentido concreto, é preciso que a alegria de existir seja afirmada em cada um, a cada instante. É ganhando espessura em prazer, em felicidade, que o movimento para a liberdade toma no mundo sua figura carnal e real".
"Não se nasce mulher: torna-se".
Com admiração,
Regina

DEUSINA disse...

Parabéns Margarete pela coragem de nos contar sua história. Infelizmente, como muitas por aí, porém diferente pela contribuição que presta à qualidade de vida das mulheres que ancoram a sua felicidade nas vivências dos seus inúmeros papeis sociais de filha, estudante, profissional, amante, mãe, esposa, amiga e tantos outros sempre cheia de responsabilidades e de desejos.
bjs
Deusina